Spike Lee fala de Bolsonaro em Cannes: “Estamos sendo governados por gângsteres”

Foto: Da esquerda para a direita, o júri do Festival de Cannes em 2021: Mylène Farmer, Kleber Mendonça Filho, Maggie Gyllenhaal, Jessica Hausner, Mati Diop, Spike Lee (presidente), Mélanie Laurent, Tahar Rahim e Song Kang-ho. DANIELE VENTURELLI / WIREIMAGE

Os nove jurados que decidirão dentro de 13 dias a premiação do 74º Festival de Cinema de Cannes sabem que estão perante um momento histórico: pelo menos dois deles repetiram essa expressão durante sua apresentação na entrevista coletiva que antecedeu à cerimônia de inauguração nesta terça. E liderando esse grupo selvagem está Spike Lee, que já deveria ter presidido o júri da edição de 2020, caso tivesse acontecido. Naturalmente, o cineasta radicado em Nova York, que em 2018 ganhou o Grande Prêmio do Júri com Infiltrado na Klan, estava se sentindo em casa: três ou quatro declarações políticas antes de decidir que não falaria muito mais à imprensa, porque afinal são nove cineastas no júri, “e todos iguais”. Mas teve tempo de discorrer sobre o atual estado da indústria: “As salas e as plataformas digitais precisam coexistir. Houve um tempo em que se pensou que a televisão mataria o cinema, então este medo não é novo, e sim cíclico”.

Lee (Atlanta, Geórgia, 64 anos), que esteve em numerosas ocasiões na competição (“Lembro uma vez que voei de Nice a Nova York para ver um jogo dos Knicks numa final da NBA e voltei; aliás, perderam”), salientou o racismo presente na sociedade atual. “Quando você vê o irmão Eric Garner, quando você vê o rei George Floyd, assassinados, linchados, penso em Radio Raheem [o personagem de Faça a coisa certa, de 1989, o segundo longa do cineasta e o primeiro dele a passar em Cannes]. E trinta e tantos fucking anos depois, os negros continuam sendo caçados como animais”. Sobre o mundo atual, comentou: “Está governado por gângsteres. O agente laranja [assim se refere a Donald Trump, para não citar seu nome], o cara lá do Brasil e Putin. Eles fazem o que querem, sem moral nem escrúpulos. E esse é o mundo em que vivemos. Temos que levantar a voz contra mafiosos desse tipo”. A competição está entregue a Lee: até o cartaz oficial é um aceno à peça de promoção do seu primeiro filme, Ela quer tudo.

Junto a Lee estavam o crítico e cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, a atriz e diretora francesa Melánie Laurent, a realizadora franco-senegalesa Mati Diop (que chamou a atenção em Cannes com Atlantique), o ator coreano Song Kang-ho (o protagonista habitual do cinema de Bong Joon-ho e, portanto, de Parasita), a cineasta austríaca Jessica Hausner, a atriz e diretora norte-americana Maggie Gyllenhaal, a cantora francesa Mylène Farmer e o ator francês Tahar Rahim. Tanto Mendonça como Gyllenhaal admitiram que estavam havia quase dois anos sem entrar em uma sala de cinema, e Rahim acrescentou que há muito tempo nem sequer fala de filmes.

Quando recordaram como receberam o convite, Hausner contou, divertida, que dias antes tinha visto o anúncio da programação: “Estava cheia de títulos que eu queria ver, e fui marcando… Pouco depois me chegou o e-mail, e foi assombroso”. Eles avaliarão 23 filmes, embora tenham a sensação de que este não será um Cannes normal: é o primeiro depois da pandemia, com uma maioria de mulheres no júri, um presidente negro pela primeira vez… “É uma edição histórica, e isso aumenta a honra de fazer parte deste grupo”, comentou Laurent. Song chegou a achar que esta edição poderia não acontecer por causa da pandemia, então, para o sul-coreano, estar em Cannes é “quase um milagre”. Rahim, cujo primeiro grande filme, Um profeta, concorreu na edição de 2009, definiu a competição como “o lugar onde o sonho de um menino de ser ator pode sair transformado em realidade”.

Política e feminismo
A parte final da coletiva enfocou a política e em aspectos sociais. Respondendo à reflexão de uma jornalista, Mendonça recordou o sofrimento causado pela covid-19 em um país governado por um político como Jair Bolsonaro, e Gyllenhaal salientou: “O cinema sempre foi comprometido em temas políticos, e não só de forma consciente. Temos que estar atentos às mensagens que chegam aos nossos corações e mentes”.

E, sobre o cinema feito por mulheres, a nova-iorquina refletiu: “Fazemos filmes diferentes, contamos histórias de forma diferente. E para isso, para levar essas histórias adiante, às vezes é preciso usar uma musculatura extra”. Laurent, que combinou uma grande carreira como atriz e diretora, tanto de ficção como em documentários, recordou que nesta edição o concurso fez um esforço pelo ecológico, pela reciclagem e pelo cinema sobre o meio ambiente. “É uma notícia maravilhosa, mas vejamos além: deixemos que o planeta respire e que as mulheres respirem”. Por isso, Diop encerrou da seguinte maneira a coletiva do júri: “Não aceitemos a condescendência do politicamente correto, quero que escolham nosso cinema por seu valor”.

Fonte: El País

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